Orquestra Sinfônica TNCS
Concerto Contemporâneo - Maestro Cláudio Cohen
updated
Marcos Bastos, violino
Francisco Orru, violoncelo
Anastasiya Evsina, piano
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Gravado em fevereiro de 2026
Concerto Tríplice em Dó Maior, Op 56
O Concerto para Piano, Violino e Violoncelo em Dó Maior de Beethoven é frequentemente tratado como o irmão menos brilhante das obras mais imponentes compostas na mesma época: Fidelio, o Concerto para Piano No. 4, o Concerto para Violino e a Sinfonia No. 4. É importante notar que este trabalho foi escrito com um pianista amador em mente: a parte relativamente simples do piano foi projetada para o patrono de Beethoven, o arquiduque Rudolf; no entanto, músicos profissionais são necessários para a parte brutal do violoncelo e a parte menos difícil – mas ainda bastante desafiadora – do violino. O trabalho foi estreado em 1808 e segue todos os padrões esperados. O primeiro movimento, Allegro, está em forma sonata, com os principais temas apresentados pela orquestra antes dos solistas aparecerem. O segundo movimento, Largo, é muito mais compacto e poético. O Rondo alla polacca, para além de qualquer apropriação de músicas tradicionais, tem o ritmo como ponto central.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Gravado em fevereiro de 2026
Abertura Brasileira
A Abertura Brasileira, de Mário Olinto, insere-se no repertório sinfônico brasileiro marcado pela valorização de elementos nacionais. A obra apresenta caráter vibrante e afirmativo, explorando ritmos e gestos melódicos associados à tradição popular brasileira, integrados a uma escrita orquestral de perfil concertante. Estruturalmente, a peça articula contrastes entre seções mais rítmicas e expansivas e momentos líricos de maior cantabilidade. A orquestração privilegia cores vivas, com destaque para os metais e para a percussão, contribuindo para a atmosfera festiva sugerida pelo título. A linguagem é tonal, com harmonias claras e discurso direto, aproximando-se do nacionalismo musical do Século XX no Brasil. A obra cumpre função de abertura tanto no sentido formal quanto simbólico: introduz o público a um universo sonoro que conjuga tradição sinfônica e identidade cultural brasileira.
Damiano Tognetti, arranjos e regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Gravado em novembro de 2026
Ennio Morricone
O compositor Ennio Morricone foi um dos maiores autores de música para cinema do Século XX, responsável por mais de quinhentas trilhas para filmes e séries. Sua carreira ganhou projeção internacional principalmente a partir das colaborações com o diretor Sergio Leone nos chamados “westerns spaghetti”, como The Good, the Bad and the Ugly e Once Upon a Time in the West. As trilhas orquestrais de Morricone destacam-se pela originalidade de timbres, pela força melódica e pela capacidade de criar atmosferas muito marcantes. Embora utilizasse a tradição sinfônica europeia, ele frequentemente combinava a orquestra com elementos pouco convencionais, como assobios, guitarra elétrica, coro, sinos, instrumentos populares e efeitos sonoros. Essa mistura produziu uma linguagem imediatamente reconhecível e profundamente ligada à narrativa cinematográfica. Em suas obras mais líricas, Morricone explorava melodias amplas e emocionais, muitas vezes sustentadas por harmonias simples, mas extremamente expressivas. Trilhas como as de Cinema Paradiso, The Mission e Once Upon a Time in America mostram seu domínio da escrita orquestral e coral, equilibrando dramaticidade, espiritualidade e delicadeza. Sua música ultrapassou o universo do cinema e passou a ser frequentemente executada em salas de concerto, tornando-se referência fundamental para a composição de trilhas sonoras contemporâneas.
Ayyub Guliyev, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Gravado em fevereiro de 2026
Capricho Azerbaijano
A obra Capricho Azerbaijano, do compositor Fikret Amirov, foi escrita em 1961 e é uma das peças orquestrais mais representativas da música sinfônica do Azerbaijão. Amirov ficou conhecido por unir a linguagem da música de concerto ocidental às tradições musicais orientais e ao mugham (gênero tradicional azerbaijano marcado pela improvisação e pelo lirismo modal). Na obra, o compositor cria uma atmosfera extremamente colorida, vibrante e contrastante, explorando ritmos populares, melodias inspiradas na tradição do Azerbaijão e uma orquestração brilhante. Como é típico do gênero, a peça apresenta mudanças rápidas de caráter, alternando momentos festivos e grandiosos com passagens líricas e delicadas. A música destaca-se pelo forte nacionalismo musical e pela riqueza de timbres da orquestra, aproximando-se, em certos momentos, da exuberância orquestral de compositores como Rimsky-Korsakov e Khachaturian. Amirov utiliza temas de inspiração popular de maneira livre e imaginativa, evocando paisagens, danças e celebrações da cultura azerbaijana. O Capicho Azerbaijano se tornou uma das obras sinfônicas mais conhecidas de Amirov e ocupa lugar importante no repertório orquestral do Azerbaijão por representar, de forma muito expressiva, a identidade musical nacional do país.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Gravado em abril de 2025
Hedwig's Theme
Hedwig’s Theme, composta por John Williams para o filme Harry Potter e a Pedra Filosofal, tornou-se o principal motivo musical associado a todo o universo da série. Escrita originalmente para celesta, instrumento cujo timbre delicado e cristalino contribui para a atmosfera de encantamento, a peça combina um caráter misterioso com um lirismo marcante, apoiando-se em contornos melódicos sinuosos e em uma harmonia que alterna entre o mágico e o levemente sombrio. Ao longo dos filmes, o tema é constantemente transformado, reaparecendo em diferentes orquestrações e contextos dramáticos, o que reforça sua função como elemento unificador da narrativa musical e como símbolo sonoro do mundo bruxo criado na saga.
Simon Diricq, saxofone
Cláudio Cohen, regência
Concerto para Saxofone em Mi Bemol Maior, Op. 109
Durante a sua estada em Paris no final da vida, Glazunov ouviu a banda cheia de saxofones da Garde Républicaine e inspirou-se a escrever duas obras para o instrumento: uma peça de câmara para quatro saxofones e o Concerto para Saxofone Alto e Orquestra de Cordas, Op. 109. Glazunov parece imune ao jazz do saxofone que invadiu Paris; o concerto é inteiramente clássico, embora inclua alguns dos temas levemente folclóricos semelhantes aos que Glazunov havia empregado em suas primeiras partituras russas. A obra de um movimento é uma rapsódia livre, essencialmente lírica e por vezes melancólica, com algumas interjeições extrovertidas. Na maior parte, as cordas mantêm um papel de apoio discreto. O andamento muda frequentemente e o concerto exige que o solista demonstre todas as habilidades musicais: tocar suavemente e cantabile nas várias seções lentas; controle tonal em uma ampla faixa dinâmica conforme a melodia sobe e desce; e, nas passagens mais intrincadas e animadas, dedilhado ágil e glissandos eficazes. Quase no ponto médio exato, o saxofone apresenta uma cadência longa e cada vez mais agitada, que morre num suspiro; esta é a base da transição para o que inicialmente parece ser um final de tarantela. No entanto, Glazunov não mantem o ritmo de dança até o fim; o solista relembra os temas anteriores, mais líricos, enquanto permanece animado, e o concerto termina com trinados e gestos mais convencionais.
Elisa Fukuda, violino
Carlos Prazeres, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Agosto de 2025
Concerto para Violino No. 5 em Lá Maior, K. 219
Cada um dos sucessivos concertos para violino de Mozart é mais longo e épico do que aquele que o precedeu, e quando ele alcançou o último dos autênticos, o Concerto para Violino No. 5 em Lá Maior, K. 219 (o "Concerto Turco"), Mozart conseguiu criar algo muito próximo do concerto instrumental do século seguinte. Embora a peça em si esteja claramente dentro da tradição do concerto de câmara clássico, a sua escala (normalmente superior a 25 minutos) e o grau das suas exigências técnicas marcam a obra como algo novo para o violino. Muitas peças com exigências físicas brutas iguais ou maiores já haviam sido compostas na época, mas nenhuma delas sobreviveu ao teste do tempo, e certamente nenhuma é tão formidável – não é sem razão pela qual este é o único dos cinco que recebe regularmente tanta atenção de musicólogos e historiadores, quanto o de concertos para piano de Mozart. Um cavalo de guerra do repertório estudantil e um elemento básico da dieta do profissional, este pode muito bem ser o concerto para violino mais tocado já escrito. O alcance dramático do Concerto No. 5 é verdadeiramente impressionante: é quase uma ópera em forma de concerto, com o solista como protagonista. Seu apelido vem de uma seção do terceiro movimento, um Allegro selvagem e frenético.
Lilian Raiol, violino
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Outubro de 2025
As Quatro Estações
As Quatro Estações constituem um conjunto de quatro concertos para violino e orquestra, compostos por Vivaldi em 1723, como parte de uma série de doze concertos publicada em Amsterdã em 1725 sob o título Il cimento dell’armonia e dell’inventione. Ao contrário da maioria de seus concertos, esses quatro apresentam um programa claramente definido: cada concerto vem acompanhado de um soneto ilustrativo impresso na parte do primeiro violino, descrevendo a respectiva estação do ano. A autoria desses poemas é desconhecida, mas há especulações de que o próprio Vivaldi os tenha escrito. Cada concerto retrata de forma vívida os elementos característicos da estação que representa. O inverno é retratado com frios contrastes de agilidade e lentidão; a primavera evoca florescimento e alegria; o verão transmite calor, tempestades e languidez; e o outono celebra a colheita, a fartura e os festejos. A música de Vivaldi impressiona pela imaginação sonora, pelos efeitos programáticos e pelo virtuosismo exigido do solista, consolidando As Quatro Estações como um dos marcos mais famosos da música barroca.
Carlos Eduardo Santos, violino
José Miguel Rodilla, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Junho de 2025
Concertino para Violino e Orquestra
O Concertino para Violino e Orquestra de Câmara de César Guerra-Peixe é uma das obras mais importantes do compositor no campo da música de concerto brasileira do Século XX. Composto em 1943, durante o período em que Guerra-Peixe ainda estava sob influência da estética modernista e do dodecafonismo, o concertino representa um momento de transição estilística em sua trajetória. Ainda que influenciado pelo dodecafonismo, o Concertino já apresenta uma linguagem mais livre, com elementos melódicos e rítmicos que prenunciam sua guinada posterior ao nacionalismo musical. A obra é dividida em três movimentos, seguindo a estrutura tradicional de concertos: I. Allegro moderato, II. Andante e III. Allegro vivace. A obra demonstra uma escrita moderna, com momentos de dissonância, contraponto elaborado e exploração timbrística. No entanto, Guerra-Peixe ainda se encontra em diálogo com estruturas formais tradicionais. A parte do violino solista é expressiva e técnica, exigindo do intérprete um bom domínio técnico e sensibilidade musical. O solista dialoga constantemente com os naipes da orquestra de câmara, em uma escrita refinada. A orquestra de câmara é utilizada com precisão e variedade de cores. Guerra-Peixe demonstra grande habilidade na combinação tímbrica e no uso do contraponto entre solista e conjunto. O Concertino marca o final do envolvimento mais intenso de Guerra-Peixe com as técnicas da música atonal e dodecafônica, sob a influência de Hans-Joachim Koellreutter e do movimento Música Viva. Pouco depois, em meados da década de 1940, Guerra-Peixe rompe com o dodecafonismo e adota uma linguagem nacionalista, aproximando-se da música popular brasileira e do folclore — movimento que consolidaria sua identidade musical mais conhecida. Apesar de não ser tão executado quanto outras obras do compositor, o Concertino para Violino e Orquestra de Câmara é um excelente exemplo da produção sinfônica brasileira moderna do Século XX. Ele mostra um Guerra-Peixe em plena transformação, buscando caminhos próprios entre o modernismo europeu e as raízes culturais brasileiras.
Luciana Arraes, violino
Luís Gorelik, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Maio de 2025
As Quatro Estações Portenhas
As Quatro Estações Portenhas – Verano, Invierno, Primavera e Otoño – foram escritas entre 1965 e 1970 por Piazzolla. Embora originialmente concebidas como tangos distintos, Piazzolla frequentemente as apresentava como uma suíte. As peças foram inicialmente instrumentadas para violino, piano, violão, contrabaixo e bandoneón. Entre as múltiplas referências que manifestam uma relação explícita com o passado, a música de Piazzolla se conecta com bairro pobre do porto de Buenos Aires, onde nasceu o Tango. Chamam-se, por isso, Estações Portenhas. Livremente inspiradas em arquétipos da música barroca, percorrem registros expressivos distintos que se relacionam com os humores das diferentes estações, mas também com a pluralidade de uma grande metrópole da segunda metade do Século XX. A versão desta noite, para violino e cordas, é de Leonid Desyatnikov.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Novembro de 2025
Bolero
O Bolero de Ravel foi composto originalmente para um balé, a pedido de Ida Rubinstein, em 1928; sua estreia, no mesmo ano, provocou um escândalo, devido à sensualidade da coreografia de Bronislava Nijinska. O Bolero tem ritmo uniforme e uma melodia que se repete ao longo da peça; a sensação de mudança é dada pela orquestração e pela dinâmica, que aumentam gradativamente até o fim da obra. Apesar de ser a composição mais famosa e executada de Ravel, o compositor a considerava um simples estudo de orquestração.
José Miguel Rodilla, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Junho de 2025
Celtiberia Suite
Celtiberia é uma suíte de danças derivadas de bases temáticas que, em seu momento, fizeram parte do meu balé Eterna Castilla, que o bailarino Antonio e seu Ballet de Madrid estrearam com grande sucesso no Teatro alla Scala de Milão, em 1966, e que depois foi apresentado em diversos lugares do mundo. Muitos anos depois, recordei aquele balé e senti a necessidade de escrever esta suíte, integrada por seis daquelas danças, que foram profundamente e rigorosamente revisadas e recriadas, recebendo uma nova estrutura formal e instrumental. Ainda que a origem dessa música tenha sido a cena (o palco), procurei em todo momento aprofundar e extrair a essência musical que subjaz em seu âmago, para construir uma obra que deve ser considerada como nova, e com total autonomia em relação à ideia cênica original. A primeira dança de Celtiberia começa com uma breve introdução, de textura arcaizante, que reaparece posteriormente entre a Nana e a Farruca (No. 3), e antes do Finale (No. 6). Esse fio condutor confere à partitura um conceito unitário, que é reforçado por essa textura arcaizante, já mencionada, que evoca raízes medievais e está presente na maioria das danças. Quanto à orquestração, é importante dizer que exige uma orquestra de grande porte, com madeiras em trio, metais completos, ampla percussão (seis músicos, especificamente), celesta, harpa e uma seção de cordas reforçada. Consciente da importância de uma instrumentação adequada, investi muito tempo em dotar a obra de um novo e variado colorido timbrístico, que realce a nova estrutura rítmico-temática.
Manuel Moreno Buendía
Rafał Janiak, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Junho de 2025
Canções Eternas, Op. 10
Karłowicz compôs suas Canções Eternas entre 1904 e 1906, quando estava no auge da sua carreira e já era reconhecido como um dos principais compositores poloneses da nova geração. Nessa época, ele vivia em Zakopane, uma região montanhosa no sul da Polônia, onde passou muito tempo em contato com a natureza — uma influência fundamental na sua música e na sua visão de mundo. A obra surgiu em um período de profunda reflexão filosófica para o compositor. Karłowicz era um grande admirador das ideias de Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche, especialmente da visão do eterno retorno e da fusão do indivíduo com o universo. Ele acreditava que a natureza tinha uma força cósmica maior, e essa ideia de eternidade permeia toda a obra. Os títulos dos movimentos – Canção do Anseio Eterno, Canção do Amor e da Morte e Canção do Ser e da Eternidade – já indicam que a peça é muito mais do que música programática. A música soa muitas vezes como uma espécie de panorama sonoro, como se o ouvinte estivesse atravessando paisagens vastas, montanhas enevoadas ou florestas silenciosas. O mais impressionante é que a obra pode ser interpretada como uma espécie de testamento filosófico involuntário. Pouco depois de terminar a obra, Karłowicz morreu em um acidente de esqui em 1909, aos 32 anos, nas próprias montanhas que tanto amava. Essa coincidência trágica reforçou a aura de mistério e melancolia que cerca a peça.
José Miguel Rodilla, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Junho de 2025
Danzas Fanstásticas, Op. 22
Danzas Fantásticas é uma peça genial, totalmente espanhola e a obra mais conhecida de Turina. É inspirado no romance La Orgía, de José Mas. Os três movimentos têm as seguintes frases do livro impressas acima deles: 1. "Parecia que as figuras daquela imagem incomparável se moviam dentro da clíice de uma flor”; 2. "As cordas do violão soaram o lamento de uma alma indefesa sob o peso da amargura”; e 3. "O perfume das flores se fundia com o odor de manzanilla, e do fundo de taças levantadas, cheias de vinho incomparável como incenso, a alegria fluía." Cada uma das danças tem um estilo diferente de uma tradição espanhola diferente. O primeiro é um Jota de Aragão, o segundo é um Zortziko Basco e o terceiro é uma Farruca Andaluza.
Kamila Wąsik-Janiak, violino
Rafał Janiak, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Junho de 2025
Concerto para Violino No. 2 em Ré Menor, Op. 22
Wieniawski poderia ter pensado duas vezes antes de dedicar seu último e maior trabalho para violino e orquestra, o Concerto No. 2 em Ré Menor, Op. 22, de 1862, ao famoso violinista espanhol Pablo de Sarasate, se soubesse que, um quarto de século depois de escrever a peça, ele e Sarasate seriam rivais de uma maneira muito real e comercialmente mensurável; os dois foram certamente os principais compositores violinistas de sua época. O Concerto para Violino No. 1 de Wieniawski foi um grande sucesso que fez seu nome em toda a Europa; mas hoje, forçado a permanecer ou tropeçar em seus méritos duradouros como uma obra musical, é amplamente ignorado. Quando Wieniawski começou a compor seu segundo concerto, ele adotou uma abordagem diferente: ao mesmo tempo em que assegurou que o trabalho tivesse sua cota de melodias brilhantes e deslumbrantes, Wieniawski garantiu à sua nova obra uma espinha dorsal dramática e excelente estrutura musical.
Luís Gorelik, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Maio de 2025
Sinfonia No. 2 em Ré Maior, Op. 43
A Sinfonia No. 2 de Sibelius foi escrita entre 1901 e 1902; segundo o compositor, a sinfonia era uma “confissão da alma”. A obra foi estreada pela Sociedade Filarmônica de Helsinki em 1902, sob a regência de Sibelius. Enquanto os críticos estavam divididos após a estreia da sinfonia, o público admirava a peça, uma vez que seu grandioso final foi identificado com a luta pela independência da Finlândia, tendo sido apelidada de "Sinfonia da Independência"; a obra foi escrita numa época de sanções russas à língua e cultura finlandesas. O compositor finlandês Sulho Ranta disse: "... há algo nessa música – pelo menos para nós – que nos leva ao êxtase; quase como um xamã com seu tambor mágico". Escrita em quatro movimentos – Allegretto, Tempo andante, ma rubato, Vivacissimo e Finale – a sinfonia foi considerada uma das poucas criações sinfônicas do período que apontavam na mesma direção que as sinfonias de Beethoven.
Charles Olivieri-Munroe, regência
Teatro Plínio Marcos
Outubro de 2024
Sinfonia No. 8 em Sol Maior, Op. 88
Os lucros de uma série de viagens profissionais à Inglaterra permitiram a Dvořák concretizar o sonho de comprar uma pequena propriedade em Vysoká, na Boêmia. É para lá que o compositor vai passar os meses de verão com a família, a partir de 1884. E é lá que ele se sente “como se estivesse afastado do mundo ao apreciar as belezas da natureza divina”. A Sinfonia No. 8, escrita entre em 1889, é o retrato fiel desse ambiente pacífico e tranquilo que Dvořák respirava em Vysoká. É o próprio Dvořák que dirige a estreia da obra, em 1890. Constituída de quatro movimentos – Allegro con brio, Adagio, Allegretto grazioso e Allegro ma non troppo –, a sinfonia está imbuída do espírito da Boêmia.
Priscila Bomfim, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Março de 2025
Estância, Quatro Danças, Op. 8a
Como reação ao sucesso de seu primeiro balé, Panambí, o coreógrafo Lincoln Kirstein encomendou a Ginastera um balé que retratasse a vida nas fazendas de gado dos pampas, tradicional reduto do gaúcho. Ginastera, que sempre nutriu uma admiração especial pelo campo, inspirou seu balé no poema de José Hernández, El Gaucho Martín Fierro. O balé descreve o ciclo de um dia inteiro passado numa Fazenda; posteriormente Ginastera optou por reunir numa suíte para orquestra quatro das mais expressivas seções da obra original. Uma das obras mais executadas e emblemáticas do nacionalismo argentino, a suíte Estância conta com quatro movimentos – I. Los Trabajadores Agricolas, II. Danza del Trigo, III. Los peones de la Hacienda e IV. Danza Final.
Ethan Schmeisser, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Abril de 2025
Fantasia Pastoral
A Fantasia Pastoral é uma obra juvenil, escrita em 1899, quando o compositor tinha apenas dezoito anos. Por diversas razões, não recebeu um número de opus, nem foi publicada, sendo redescoberta apenas em 2017 pelo maestro Gabriel Bebeșelea, que a transcreveu a partir do manuscrito e conduziu sua segunda execução, 118 anos após a estreia. Sua estrutura é tripartite e utiliza duas fugas como principais ideias musicais, culminando em uma grande coda; é evidentemente influenciada por modelos barrocos. O tema de abertura, suave, ondulante e depois descendente, confere-lhe uma qualidade leve e pastoral, contrastando fortemente com as seções tempestuosas que se seguem, reforçando qualquer associação que se possa fazer com a alusão beethoveniana contida no título da obra. Apesar de sua estrutura formal, a peça soa mais moderna, talvez mais próxima de um poema sinfônico.
Luís Gorelik, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Maio de 2025
Obertura para una Comedia Infantil
A Obertura para una Comedia Infantil foi escrita em 1937 por Luis Gianneo, um compositor, pianista, maestro e educador argentino dentre os mais importantes do Século XX. A obra foi escrita num estilo acessível e cativante, adequado para um público jovem. Gianneo conseguiu capturar uma atmosfera lúdica por meio de melodias alegres e ritmos vívidos, frequentemente inspirados na música tradicional argentina. De instrumentação leve – apenas sopros, celesta e percussão –, a peça se destaca pelo colorido e energia, lembrando o estilo neoclássico europeu da época.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Maio de 2025
Variações sobre um Tema de Haydn, Op. 56a
Nos primeiros conjuntos de variações de Brahms, especialmente aqueles do Op. 9, a melodia é de primordial importância. Seus estudos posteriores de Beethoven, entretanto, levaram a uma nova abordagem de variação, na qual ele aderiu, em vez disso, à estrutura fraseológica básica e ao padrão harmônico de um tema. Tal como acontece com as Variações, Op. 24, as Variações sobre um Tema de Haydn, Op. 56a, estão vinculados por um movimento harmônico consistente; às vezes, este é o único remanescente perceptível do tema original. Desde a sua primeira apresentação em Viena, em 2 de novembro de 1873, esta tem sido uma das composições mais populares de Brahms – uma extensa obra-prima baseada no mais simples dos germes temáticos, na tradição das Variações Goldberg de Bach e das Variações Diabelli de Beethoven. Brahms compôs as versões orquestral e para dois pianos das Variações no verão de 1873. Comumente chamada de variações de "Santo Antônio", a peça é baseada em um tema do primeiro de um conjunto de seis divertimentos – por muitos anos considerado como sendo de Haydn, mas agora considerado como sendo do aluno de Haydn, Ignace Pleyel –, cujo segundo movimento é baseado em um antigo canto de Burgenland (um estado austríaco que faz fronteira com a Hungria) intitulado "Coral de Santo Antônio".
Lilian Raiol, violino
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Abril de 2025
Carlos Gardel / John Williams - Por una Cabeza
"Por una Cabeza" é um tango-canção composto em 1935 pelo cantor e compositor argentino Carlos Gardel, com letra de Alfredo Le Pera. O título faz referência tanto às corridas de cavalos (vencer "por uma cabeça") quanto, de forma metafórica, à perda do controle emocional "por pouco", especialmente no amor. Musicalmente, a obra se caracteriza por uma melodia lírica e nostálgica, típica do tango urbano do Rio da Prata, combinando elegância rítmica com forte carga expressiva. A letra estabelece um paralelo entre o vício em apostas e a reincidência em relações amorosas frustradas, tema recorrente no imaginário do tango. A versão para violino e orquestra, arranjada por John Williams, preserva o caráter melódico original, mas amplia seu alcance expressivo por meio de uma orquestração cinematográfica: o violino assume o papel vocal, explorando o lirismo e a sensualidade do tango, enquanto a orquestra cria uma ambiência mais ampla e emotiva. Esse arranjo contribuiu para a difusão internacional da obra, especialmente no contexto de trilhas sonoras, reforçando seu estatuto de tango clássico e transnacional.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Abril de 2025
Tema do Suerman
O tema, composto por John Williams em 1978, é uma peça sinfônica que combina heroísmo, grandiosidade e clareza melódica de forma exemplar. Ele se estrutura a partir de uma fanfarra inicial marcada por trompetes e metais brilhantes, que imediatamente estabelece a aura épica do personagem. Em seguida, surge a melodia principal, ampla e ascendente, construída sobre intervalos que evocam elevação e força moral. Williams emprega orquestração exuberante, com destaque para metais, cordas em movimento contínuo e percussão precisa, criando um senso de impulso e inevitabilidade heroica. O tema equilibra majestade e acessibilidade, funcionando tanto como assinatura musical do personagem, quanto como metáfora sonora de coragem, esperança e idealismo, características centrais do heroi.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Abril de 2025
Adventures on Earth (ET, o Extraterrestre)
A música do filme ET, de 1982, foi composta e gravada originalmente por John Williams, vencendo o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original. Várias revisões da música foram feitas antes que a trilha sonora final estivesse pronta. Algumas das versões da música terminariam no álbum da trilha sonora original, juntamente com novas gravações, enquanto outras terminariam nos lançamentos de 1996 ou 2002 antes da La La Land Records finalmente lançar a trilha sonora definitiva, incluindo todas as versões alternativas.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Abril de 2025
Star Wars Suite
A música de Star Wars está entre as contribuições mais conhecidas e populares à música cinematográfica moderna, apresentando uma variedade de cerca de cinquenta temas musicais recorrentes para representar personagens e outros elementos da trama. Em toda a franquia, que consiste em um total de mais de 18 horas de música, Williams escreveu aproximadamente cinquenta temas em uma das maiores e mais ricas coleções de temas da história da música cinematográfica. Esta suíte reúne alguns dos temas principais em cinco movimentos: I. Main Title; II. Princess Leia's Theme; III. The Imperial March (Darth Vader's Theme); IV. Yoda's Theme; e V. Throne Room & End Title.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Junho de 2025
Johannes Brahms - Sinfonia No. 2 em Ré Maior, Op. 73
Há uma diferença radical de caráter entre as duas primeiras sinfonias de Brahms: a primeira é trágica e dramática, já a segunda é alegre e relaxada. E também as circunstâncias de composição diferem drasticamente: se a Sinfonia No. 1 foi o resultado de duas décadas de luta e pesquisa interior – os primeiros esboços são de 1855 e Brahms só terminou a peça em 1876 –, a segunda foi composta num rasgo fulminante de inspiração, basicamente durante o Verão e um pouco do Outono de 1877. O enorme sucesso da Sinfonia No. 1 deixou Brahms num estado de exaltação tal que todas as suas inibições em relação ao gênero sinfônico sumiram, permitindo-lhe compor a Sinfonia No. 2 em alta velocidade. A obra acumula referências à música dos grandes mestres vienenses – Haydn, Mozart e Beethoven, as figuras principais do estilo clássico. Essa ligação explícita à música do passado é comum em Brahms, afastando-o de figuras contemporâneas como Wagner e Liszt, adeptos da música do futuro. Mas a atitude de Brahms em relação ao passado não era meramente conservadora ou reverencial, para muitos compositores posteriores Brahms foi visto como sendo afinal mais progressista do que conservador, em particular pela sua capacidade em unir todos os temas num elemento comum, algo absolutamente inspirador para Schoenberg e seus alunos Berg e Webern.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Maio de 2025
Richard Wagner - Prelúdio de Amor e Morte de Tristão e Isolda
O Prelúdio de Tristão e Isolda, de Richard Wagner, é uma das obras mais emblemáticas do romantismo tardio e marcou profundamente a história da música ocidental. Composta como introdução à ópera estreada em 1865, a peça condensa de forma puramente orquestral os grandes temas do drama: o desejo, a impossibilidade do amor e a tensão entre Eros e Thanatos, ou seja, entre o amor e a morte. Logo nos primeiros compassos surge o célebre acorde de Tristão (F - B - D♯ - G♯), que se tornou símbolo da ambiguidade harmônica. Ele desafia as funções tonais tradicionais, pois não se resolve de modo claro, refletindo a irresolução emocional dos protagonistas. A melodia ascendente e suspensa do tema inicial expressa o anseio e o desejo inatingível; a música parece sempre tender à resolução, mas Wagner prolonga e adia esse momento continuamente, criando uma sensação de anelo infinito. Do ponto de vista orquestral, o compositor constrói longos arcos de tensão sustentados por cromatismos e por uma sonoridade envolvente, quase sem cadências definidas, o que contribui para a atmosfera de languidez e transcendência. O prelúdio prepara o ouvinte para o drama interior de Tristão e Isolda, no qual o amor só encontra plenitude na morte — ideia que será resolvida apenas no Liebestod, a “morte de amor” que encerra a ópera. Assim, o Prelúdio não é apenas uma introdução musical, mas uma síntese emocional e filosófica da obra, uma das expressões mais intensas do desejo romântico levado ao limite da tonalidade e da existência.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Junho de 2025
José Guerra Vicente - Carnaval Carioca, Suíte Sinfônica em Três Quadros
José Guerra Vicente (1907 - 1976), nascido em Portugal, porém radicado no Brasil desde os 10 anos de idade, passou todos os anos de formação e a vida adulta no Rio de Janeiro, onde teve atuação destacada no meio musical da então capital do Brasil. Violoncelista, foi um dos músicos fundadores da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e um dos intérpretes da primeira audição mundial das célebres Bachianas Brasileiras 1 e 5, escritas por Villa-Lobos para orquestra de violoncelos. Compositor prolífico, desenvolveu nos anos 1960 uma linguagem de cunho nacionalista, na qual procurou expressar imagens de sua cidade de adoção numa série de suítes chamadas Cenas Cariocas, para diversas formações instrumentais. O Carnaval Carioca é uma suíte sinfônica concebida em três quadros afins, que retratam a grande festa carioca. Nas palavras do compositor: "A presente obra deve ser entendida como uma interpretação e não como um relato. É sublinhada por temas característicos, embora incompletos e por vezes distorcidos. Trata-se, portanto, de um carnaval elaborado não no sentido prosaico da palavra, mas sim como um carnaval de sonho em que a realidade aparece apenas subjetivamente. A forma é cíclica, mantendo-se uma construção livre quanto aos sistemas". A obra inclui uma riquíssima seção de percussão, incluindo instrumentos inusuais ao mundo orquestral, como pandeiros, reco-recos e agogôs. No primeiro e terceiro quadros, a orquestra inteira é concebida como uma bateria de escola de samba, porém com timbre sinfônico. São usadas diferentes combinações instrumentais, para que essa bateria passeie pela orquestra. Por cima dessa sólida base rítmica, destacam-se, lá e cá, fragmentos de conhecidos temas carnavalescos. Já o segundo movimento tem um caráter mais melódico, quase seresteiro. Carnaval Carioca foi estreada mundialmente em 15/08/1989, na sala Villa-Lobos do Teatro Nacional Claudio Santoro, pela OSTNCS, sob regência da Maestra Elena Herrera.
Ethan Schmeisser, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Abril de 2025
Felix Mendelssohn - Sinfonia No. 3 em Lá Menor, Op. 56
Durante o inverno de 1830, em Roma, Mendelssohn começou a compor sua Sinfonia No. 3. Mas logo teve de deixá-la de lado, pois sua atmosfera não condizia com o clima ensolarado da Itália: "não consigo recuperar o cenário enevoado da Escócia". Apenas dez anos depois ele retomaria a composição daobra, terminando-a em Berlim, em janeiro de 1842. A primeira apresentação aconteceu em março, em Leipzig, sob a regência de Mendelssohn. Em 13 de junho, Mendelssohn regeu sua nova sinfonia em um concerto com a Philharmonic Society, em Londres. O enorme sucesso o encorajou a dedicá-la à Rainha Vitória, que tanto admirava sua música. De acordo com Mendelssohn, os quatro movimentos devem ser tocados sem interrupção. O primeiro inicia-se com uma triste introdução lenta. O primeiro tema, nas cordas em pianissimo, é apresentado tão logo atingimos o Allegro un poco agitato. O segundo tema, também executado nas cordas, ao invés de contrastante, apresenta-se como uma variação do primeiro tema. O movimento termina com fragmentos da introdução lenta, que nos conectam ao movimento seguinte. O segundo movimento é um scherzo sem a seção central. O primeiro tema, desenvolvido por todo o movimento, é prontamente executado ela clarineta. O segundo tema, ligeiramente mais leve que o primeiro, é apresentado pelas cordas. No movimento seguinte, após curta introdução, o primeiro tema é apresentada pelos violinos. O segundo tema, de caráter marcial, é tocado pelas madeiras e trompas. Os dois temas serão combinados ao longo de todo o movimento. Ao final, reminiscências da introdução conduzem ao movimento seguinte. O Allegro vivacíssimo é de uma vitalidade ímpar. Seu primeiro tema, alegre e ritmicamente complexo, surge logo no início com os violinos. O segundo é apresentado após um tutti orquestral, primeiramente pelo primeiro oboé e pelas clarinetas e é, em seguida, ouvido nas madeiras. Os dois temas são mesclados até o ponto em que clarineta e fagote, em uma passagem tranquila, reapresentam o segundo tema e preparam o aparecimento da coda independente que fecha a sinfonia majestosamente.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Maio de 2025
As Alegres Travessuras de Till Eulenspiegel, Op. 28
Um dos poemas sinfônicos mais populares de Strauss é Till Eulenspiegel, uma obra de movimento único para orquestra. Foi composta entre 1894 e 1895, logo após a estreia e o desastre crítico de sua primeira ópera Guntram. Ao escolher o conto popular de Till Eulenspiegel como base para o poema sinfônico, Strauss encontrou um veículo eficaz para responder aos seus críticos, que trataram sua primeira ópera de forma desfavorável. O personagem de Till Eulenspiegel é um brincalhão crônico, cujo senso implacável de sarcasmo desafia continuamente seus colegas e o coloca em apuros. Till nunca aprendia com seus erros e constantemente desprezava as convenções e qualquer crítica. A peça é baseada em um conto popular alemão que apareceu em várias versões desde o Século XIV. Alguns encontraram uma base histórica para o personagem, mas ele é melhor compreendido como uma espécie de herói popular que desafia o sistema. Embora nenhuma fonte contenha todas as aventuras de Till Eulenspiegel, o personagem é reconhecível em várias adaptações. A forma musical de Till Eulenspiegel é um rondó em grande escala. Ao identificar o personagem Till com um tema, Strauss encontrou uma forma de demonstrar a natureza recalcitrante do protagonista e também de unificar a obra. Após uma breve introdução, muitas vezes interpretada como uma expressão de "era uma vez", Strauss expõe o tema logo no início em uma passagem de trompa. O tema se repete entre os episódios do rondó, e é nesses episódios que Till Eulenspiegel vive suas aventuras. Em termos de estrutura musical, os episódios rondó proporcionam contraste e, à medida que se afastam da ideia principal, também preparam o terreno para o regresso do tema. Os episódios subsequentes mostram Till em desacordo com os camponeses, criticando os pregadores, cortejando uma mulher e sendo rejeitado por ela, e zombando da intelectualidade. Nessas seções, Strauss permitiu que seu tema para Till retornasse sob várias formas, mas ainda assim permanecesse reconhecível. No final das contas, Till é levado perante juízes, que analisam sua carreira e o sentenciam à morte. Mesmo assim, Till não consegue partir sem um gesto zombeteiro, e a peça termina com seu tema totalmente transformado e esgotadas todas as suas transformações.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Junho de 2025
Robert Schumann - Sinfonia No. 2 em Dó Maior, Op. 61
No outono de 1844, a família Schumann se mudou para Dresden, onde Robert se recuperava de um ataque de nervos para completar o Concerto para Piano em Lá Menor. Após finalizar o concerto em julho de 1845, Schumann começou a pensar numa nova sinfonia, que acabou se tornando a terceira de suas quatro, embora publicada como sendo a de número 2. Para combater os sintomas da sífilis, o compositor mergulhou em Bach, surgindo dessa pesquisa vários trabalhos para órgão, piano e cravo. Por fim, em 12 de dezembro, uma repentina onda de inspiração o levantou tão alto que ele esboçou o primeiro movimento da nova sinfonia em três dias, chegou ao seu final no dia de Natal e, em 28 de dezembro, completou os esboços preliminares. Schumann finalizou a Sinfonia No. 2 apenas 17 dias antes de sua estreia em Leipzig, em novembro do ano seguinte, conduzida por Mendelssohn.
Dillo Araújo, Haroldinho Mattos, Ticho Lavenère, Kiko Peres e Marcelo Barbosa, solistas
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Abril de 2025
Programa:
01. Fernando Morais (arr.) - Beatles Forever
02. Scorpions (arr. Fernando Morais) - Still loving You
Dillo Araújo, guitarra
03. Eric Clapton e Paul MacCartney (arr. Alexey Kurkdjian) - While my Guitar gently weeps
Haroldinho Mattos, guitarra
04. Led Zeppelin (arr. Fernando Morais) - Stairway to Heaven
Haroldinho Mattos, guitarra
05. Van Halen (arr. Marcos Cohen) - Jump
06. Rush (arr. Joaquim França) - Tom Sawer
Kiko Peres, guitarra
Ticho Lavenère, bateria
07. The Rolling Stones (arr. Marcos Cohen) - Satisfaction
08. Marcos Cohen (arr.) - Queen Medley
Marcelo Barbosa, guitarra
09. Guns N’Roses (arr. Alexey Kurkdjian) - Sweet Child O’Mine
Marcelo Barbosa, guitarra
10. Fernando Morais (arr.) - Toca Raul
11. Pink Floyd (arr. Joaquim França) - Another Brick in the Wall
Kiko Peres, guitarra
12. Dire Straits (arr. Joaquim França) - Sultans of Swing
Kiko Peres, guitarra
13. Legião Urbana (arr. Ricardo Vasconcellos) - Eduardo e Mônica
14. Jimi Hendrix (arr. Alexey Lurkdjian) - Purple Haze
Haroldinho Mattos, guitarra
15. Eagles (arr. Ocelo Mendonça) - Hotel Califórnia
Dillo Araújo, Kiko Peres, Haroldinho Mattos e Marcelo Barbosa, guitarras
Ticho Lavenère, bateria
Fernando Calixto, piano
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martina Pena
Maio de 2025
Johannes Brahms - Concerto para Piano No. 1 em Ré Menor, Op. 15
Dentre todos os compositores românticos, aquele que primeiro deu ao gênero do concerto solista o caráter das grandes obras sinfônicas foi Brahms. Em 1853, Schumann teceu os maiores elogios ao jovem compositor e previu-lhe o mais promissor futuro como sinfonista. No ano seguinte, Schumann dava sinais preocupantes da demência que o acompanhou até à morte. Brahms, como num ímpeto de homenagear o mentor, iniciou a escrita de uma sinfonia em Ré Menor. Este projeto, que cresceu inspirado no modelo da Sinfonia No. 9 de Beethoven, foi inicialmente escrito para dois pianos por uma questão prática e por Brahms ser um excelente pianista. Quando a tentativa foi abandonada, ficaram os esboços que originaram o seu Concerto para Piano No. 1, também em Ré Menor. O ambiente do primeiro movimento, Maestoso, é pesado e sombrio na sua introdução e, ao mesmo tempo, contrastante com o lirismo do segundo tema. Longe de surpreender pelo virtuosismo, o piano insere se na escrita orquestral assumindo o caráter de uma sinfonia para piano e orquestra. O segundo movimento, no qual o compositor escreveu "Benedictus qui venit in nomine Domine", é de uma profunda religiosidade e já revela traços da escrita madura de Brahms na sonoridade criada pelas cordas em surdina, pelo solo de trompa e todo o ambiente solene do piano. Um ritmo de dança exposto no piano, à boa maneira dos últimos movimentos dos concertos solistas, abre o Rondó final, onde Brahms explora uma das técnicas que lhe são mais queridas, a variação. Contendo alguns elementos escolásticos, nomeadamente o recurso a uma pequena passagem em fuga, esse movimento encerra o concerto. Na sua orquestração, Brahms recorreu à ajuda de Joseph Joachim, e foi sob sua direção e com o compositor ao piano que a obra estreou em 22 de Janeiro de 1859, sendo recebida com sucesso na ocasião.
Renata Dourado, soprano
Gustavo Rocha, barítono
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Maio de 2025
Sinfonia No. 3, Op. 27, "Espansiva"
Nielsen escreveu sua Sinfonia No. 3 entre 1910 e 1911. Com cerca de 35 minutos de duração, é única em sua produção sinfônica por ter partes vocais, especificamente solos sem palavras para soprano e barítono no segundo movimento. O próprio Nielsen conduziu a estreia do trabalho, juntamente com a estreia de seu Concerto para Violino, em 28 de fevereiro de 1912, com a Orquestra Real Dinamarquesa de Copenhague. A designação de caráter do primeiro movimento, Allegro expansivo, serve como subtítulo da sinfonia, mas não está claro o que Nielsen quis dizer com Sinfonia Espansiva. Dois meses após sua estreia, a sinfonia estava no repertório da Royal Concertgebouw Orchestra, em Amsterdã, e em 1913 já havia sido apresentada na Alemanha, Suécia e Finlândia.
Ingrid Uemura, piano
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Julho de 2025
Concerto para Piano No. 2 em Fá Menor, Op. 21
O Concerto para piano em Fá Menor marca o retorno de Chopin à Polônia após os primeiros sucessos internacionais. Há muito ele sonhava com um recital público em Varsóvia, e tratou de preparar-se com uma execução do concerto em sua residência, para convidados, dia 7 de fevereiro de 1830. A apresentação pública aconteceu no Teatro Nacional em 17 de março, seguida por uma segunda récita, dia 22. Chopin instalou-se em Paris em 11 de setembro de 1831. Seu recital de estreia na capital francesa aconteceu na Sala Pleyel, em 26 de fevereiro de 1832, e incluiu o Concerto em Fá menor. O Concerto em Mi Menor, concluído em setembro de 1830, foi publicado em 1833 como Concerto No. 1, Op. 11; o Concerto em Fá Menor, concluído em dezembro de 1829, foi publicado em 1836 como Concerto No. 2, Op. 21. Ambos resultam da necessidade em que o pianista se encontrava de um repertório que valorizasse suas habilidades individuais, mais ambicioso que as fantasias brilhantes, improvisos e variações que executara até então.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Maio de 2025
Gustav Mahler- Sinfonia No. 1 em Ré Maior
A primeira sinfonia de Mahler foi concluída em 1888, tendo sido estreada em Praga, no ano seguinte, como um poema sinfônico. Em 1893, o compositor a rebatizou Titã, um Poema Sinfônico em Forma de Sinfonia. O título se deve a uma personagem romântica do poeta Jean-Paul Richter. Reelaborada e revista diversas vezes, essa obra só em 1906 tomou sua forma definitiva, na qual Mahler suprimiu um movimento inteiro. Seguindo a tradição do poema sinfônico, Mahler estabelece um roteiro literário que, embora possa ter sido determinante para a elaboração da obra, não é fundamental para a sua compreensão. Não deixa de ser interessante, porém, conhecer as referências literárias que o compositor atribuiu originalmente aos seus movimentos: os dois movimentos iniciais corresponderiam simbolicamente a Dias da Juventude - Flores, Frutos e Espinhos, o primeiro deles tendo sido batizado de Primavera sem Fim. Aos dois movimentos seguintes, Mahler denominou Comédia Humana, o primeiro deles intitulado Uma marcha fúnebre à maneira de Callot e o último simbolizando a trajetória do herói de Richter, que vai do Inferno ao Paraíso. Essas referências literárias foram suprimidas na versão final de 1906.
Kevin Spagnolo, clarineta
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Abril de 2025
Weber compôs seu Concerto para Clarineta No. 1 em 1811, após seu Concertino para Clarineta, Op. 26, e antes de seu Concerto para Clarineta No. 2. Todas as três obras foram escritas e dedicadas ao clarinetista Heinrich Joseph Baermann, e todas as três mostram uma compreensão completa das capacidades do instrumento. O Concerto No. 1 é distintamente diferente do concertino, a obra anterior é levemente lúdica e liricamente expressiva. O Concerto No. 1 é profundamente sério, dramático e expressivo. O concerto é composto por três movimentos: um forte Allegro de abertura, um Adagio central intensamente expressivo e um Rondo Allegretto de fechamento enérgico. Weber é claramente um mestre da orquestra romântica, e sua escrita para os solistas é supremamente habilidosa do começo ao fim.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Wolfgang Amadeus Mozart - Sinfonia No. 40 em Sol Menor, K. 550
Mozart compôs suas três últimas sinfonias durante o verão de 1788. As anotações em seu catálogo temático sugerem que todas foram escritas no espaço de cerca de dois meses. Muito se tem discutido criticamente sobre os motivos de sua composição, já que parece que Mozart não tinha uma ocasião específica em mente para a execução dessas obras. A noção romântica de que ele as compôs sem um propósito prático é hoje amplamente descartada, por não condizer com os procedimentos composicionais que se conhece dele. O estudioso H. C. Robbins Landon apresentou recentemente argumentos convincentes para sugerir que as sinfonias foram, de fato, compostas para uma série de concertos que Mozart realizou no outono ou durante a época do Advento de 1788. O argumento de Robbins Landon baseia-se principalmente em uma carta sem data escrita por Mozart a seu principal benfeitor, o também maçom Michael Puchberg. Nessa carta, ele menciona seus concertos, que começariam “na próxima semana” — concertos que estudiosos antes acreditavam nunca ter ocorrido. Há também indícios que sustentam a ideia de que Mozart levou as três sinfonias em sua turnê pela Alemanha no ano seguinte, o que enfraquece ainda mais a antiga suposição de que o compositor jamais teria ouvido a execução de três das maiores obras do repertório sinfônico. Um aspecto das sinfonias sobre o qual os comentaristas concordam unanimemente é a extraordinária diversidade de caráter entre elas. Cada uma possui qualidades únicas que, juntas, desmontam completamente o mito de que a extrema agitação da Sinfonia em Sol Menor refletiriam as circunstâncias miseráveis nas quais Mozart se encontrava naquele período. As cartas de súplica endereçadas a Puchberg durante esses meses são, de fato, documentos comoventes que poderiam ser citados como indícios do estado mental de Mozart. Mas essas cartas dificilmente explicam o calor sereno, a força e o humor da Sinfonia em Mi Bemol ou a grandiosidade elevada da Sinfonia “Júpiter”. Também não se deve esquecer que as qualidades trágicas tantas vezes atribuídas hoje à sinfonia nem sempre foram evidentes para todos. Para Robert Schumann, a sinfonia era uma obra de “leveza e graça gregas”, enquanto para um escritor posterior, Alfred Einstein, há trechos que “mergulham no abismo da alma”. Tal ambiguidade talvez seja apropriada para uma das maiores obras de um compositor cuja música frequentemente desafia qualquer descrição adequada. A sinfonia segue a estrutura habitual de quatro movimentos; o Molto allegro inicial já anuncia algo fora do comum ao começar não com o tradicional e sonoro “chamado à atenção”, mas com uma agitação discretamente expressa. A paixão inquieta do tema principal conduz a conclusões que mais protestam do que oferecem consolo. O sentimento dominante do movimento é a urgência: surge um compasso de preparação após o outro. Em meio a grande instabilidade e uma aura de questionamento, vislumbra-se o abismo de Don Giovanni. No final, as trompas irrompem com pinceladas selvagens de cor.
Existem duas versões da sinfonia. A primeira é modestamente orquestrada para flauta e pares de oboés, trompas e cordas, mas em algum momento pouco depois da composição, Mozart adicionou partes para duas clarinetas, alterando levemente as partes de oboé para acomodá-las. Tais revisões posteriores certamente dão mais credibilidade à ideia de que Mozart conduziu execuções da obra — dificilmente ele teria se dado ao trabalho de fazer esses ajustes se a sinfonia não estivesse sendo usada para fins práticos.
Teatro Plínio Marcos
Novembro de 2024
Karlheinz Stockhausen - Harlekin
A obra Harlekin, composta por Karlheinz Stockhausen entre 1975 e 1976, é um trabalho singular no repertório contemporâneo da clarinete. Concebida especialmente para a clarinetista Suzanne Stephens, colaboradora próxima do compositor, a peça rompe com os limites tradicionais da performance instrumental ao exigir que o músico não apenas toque, mas também dance. Inspirado na figura do Arlequim, personagem clássico da commedia dell’arte, o intérprete encarna um personagem multifacetado que se expressa por meio do som, do gesto e do movimento. A obra é construída a partir de uma única fórmula melódica, técnica que Stockhausen desenvolveu com mais profundidade em obras posteriores. Essa fórmula serve como base para a organização de todos os parâmetros musicais, conferindo unidade interna à peça. O espaço cênico é um elemento fundamental da composição: o(a) clarinetista move-se continuamente pelo palco em trajetórias espiraladas, circulares ou em forma de oito, numa coreografia cuidadosamente concebida para integrar som e corpo. Assim, a música não se limita ao domínio auditivo, mas torna-se também uma experiência visual e cinestésica. A estrutura da peça é dividida em sete seções, cada uma representando uma faceta distinta do personagem: o sonhador, o brincalhão, o sofredor, o extático, o apaixonado, o distraído e o dançante. Cada uma dessas "máscaras" se manifesta em transformações tanto na linguagem musical quanto nos modos de movimento e expressão corporal do intérprete. Trata-se, portanto, de uma composição teatral e multidisciplinar, na qual música, dança e performance se fundem em uma única linguagem. Harlekin não apenas desafia os limites técnicos e físicos do(a) intérprete, como também propõe uma nova concepção de performance musical, que antecipa muitas das preocupações interdisciplinares da arte contemporânea.
Vasilis Tsiatsianis, regência
Teatro Plínio Marcos
Novembro de 2024
5 Danças Gregas
As 5 Danças Gregas foram escritas pelo compositor grego Níkos Skalkótas (1904 - 1949) em 1936, e constituem uma das obras mais executadas de Skalkótas, representando uma importante contribuição para a música orquestral grega moderna. Cada dança representa uma região ou um estilo diferente da música tradicional grega: I. Epirotikos (Epiro), II. Kretikos (Creta), III. Tsamikos (região central da Grécia), IV. Arkadikos (Arcádia, região do Peloponeso) e V. Kleftikos (dança de guerreiros).
Paulo Ronqui, trompete
Nathalie Marin, regência
Teatro Plínio Marcos
Outubro de 2024
Concertino para Trompete e Orquestra
É uma obra escrita em três movimentos, com uma linguagem moderna e cerca de dezessete minutos de duração. Durante os últimos vinte anos escrevi várias obras que envolvem o trompete. O Concertino é dedicado à escola brasileira de trompete, ou seja, professores, mestres, doutores e performers que, há anos, dedicam seu tempo no fomento e divulgação dessa escola, que se sedimenta com a criação de métodos, estudos, peças
camerísticas, orquestrais e solos; nesse sentido, acredito ter colaborado com essa escola.
Fernando Morais
Ayyub Guliyev, regência
Teatro Plínio Marcos
Setembro de 2024
Dom Quixote, Gravuras Sinfônicas
Dom Quixote, Gravuras Sinfônicas, de Gara Garayev, é uma vibrante suíte orquestral composta em 1960 a partir da trilha sonora que o compositor escreveu em 1957 para o filme de Grigory Kozintsev, uma adaptação cinematográfica da célebre obra de Miguel de Cervantes. A partir dessa música para cinema, Garayev elaborou oito vinhetas sinfônicas que retratam com grande expressividade as aventuras de Dom Quixote, seu mundo interior e as nuances temáticas do romance. A estrutura da suíte é variada e altamente descritiva. O movimento de abertura, “Travels” (Viagens), apresenta um tema de caráter errante, com atmosfera semelhante aos “promenades” de Mussorgsky, evocando o espírito de busca e deslocamento constante do cavaleiro andante. “Aldonza”, por sua vez, traz uma melodia delicada conduzida pela flauta, representando com ternura a figura idealizada da amada de Dom Quixote. Em “Pavane”, surgem timbres nobres e solenes, evocando um ambiente cerimonial. Nos movimentos finais, como “Cavalcade” e “Death of Don Quixote”, a música assume contornos mais dramáticos e profundos. “Cavalcade” é marcada por um dinamismo vigoroso, com ecos do estilo de Prokofiev, enquanto “Death of Don Quixote” (Morte de Dom Quixote) encerra a obra com cordas pungentes e comoventes, que sugerem o fim de uma vida movida por sonho e delírio. Gara Garayev, importante nome da música soviética e discípulo de Shostakovich, é uma das figuras centrais da música do Azerbaijão no Século XX. Em suas composições, ele soube articular os elementos modais e rítmicos azerbaijanos com os recursos da música de concerto ocidental. A escolha do título "Gravuras Sinfônicas" reflete uma sensibilidade interdisciplinar: Garayev procurou evocar não apenas os episódios narrativos do romance, mas também suas imagens — como as xilogravuras de antigas edições — por meio da orquestra, conferindo à suíte um caráter visual, quase pictórico, apesar de puramente musical. Ao transpor a narrativa de Cervantes para o domínio orquestral, Garayev oferece uma leitura musical rica em imagens e atmosferas.
Cristian Lupes, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Março de 2025
Rapsódia Romena No. 1 em Lá Maior, Op. 11
Enescu compôs suas duas Rapsódias Romenas, Op. 11 em Paris, em 1901, pouco antes de completar vinte anos de idade. Ambas foram estreadas no mesmo concerto, no Ateneul Român, em Bucareste, no dia 8 de março de 1903, sob a regência do compositor. A Rapsódia Romena No. 1, a mais famosa das duas, é um conjunto de danças tradicionais romenas divinamente arranjadas e orquestradas. A música inicia-se com uma melodia alternada entre a clarineta e o oboé. Desenvolve-se em várias seções, algumas rápidas, outras lentas, até desembocar em uma dança trepidante e num final surpreendente: após um momento estrondoso, quando se pensa que a obra terminou, as madeiras iniciam uma seção alegre que conduz a um rápido desfecho.
Priscila Bomfim, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Março de 2025
Johannes Brahms - Sinfonia No 4 em Mi Menor, Op 98
Sinfonia No. 4 em Mi Menor, Op. 98
A Sinfonia No. 4, Op. 98 é a última obra sinfônica de Brahms e começou a ser composta no verão de 1884. Elisabeth von Herzogenberg e Clara Schumann, duas grandes amigas do compositor, inquiriram-no por carta durante todo o inverno de 1884 e primavera de 1885 se ele estaria escrevendo uma nova sinfonia. Brahms não lhes respondeu. Passou todo o verão de 1885 trabalhando no terceiro e quarto movimentos, e no início de setembro enviou a Elisabeth von Herzogenberg a partitura do primeiro. Em outubro do mesmo ano a sinfonia foi estreada em Meiningen, numa interpretação da orquestra da corte conduzida por Brahms. A Sinfonia No. 4 é um exemplo perfeito da forma reverencial com que o compositor tratou a tradição sinfônica, revestindo-a, no entanto, de um cunho pessoal indelével. A sinfonia tem quatro movimentos – Allegro non troppo, Andante moderato, Allegro giocoso e Allegro energico e passionato.
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Março de 2025
Maurice Ravel - La Valse
A valsa, esse ritmo ternário infernal que fazia a cabeça das jovens donzelas rodopiar até à perda da responsabilidade pelos seus atos, foi a forma de dança mais popular do Século XIX e a que mais vezes foi retratada no repertório sinfônico e na música de salão até as primeiras décadas do Século XX. Dentre os músicos que homenagearam a valsa, e poderíamos citar vários, Ravel representou o culminar de requinte artístico na forma de a retratar. Sendo a dança um tema recorrente na sua obra, nomeadamente com referências à música antiga ou no incontornável Bolero, a valsa foi alvo do gênio de Ravel em Valsas Nobres e Sentimentais e em La Valse, escrita em 1920. Se as primeiras se inspiram nas pequenas obras-primas que Franz Schubert escrevera um século antes, La Valse reproduz o ambiente dos salões de baile do Século XIX dentro da gramática musical inconfundível de Ravel. La Valse começou por ser um poema sinfônico composto com a intenção de homenagear o grande senhor da valsa que foi Johann Strauss, mas tornou-se um poema coreográfico destinado aos Balés Russos e a Diaghilev. No entanto, devido a vários desentendimentos, a obra foi dada a conhecer ao mundo numa versão para dois pianos do próprio autor no ano de 1920. Na partitura, o compositor escreveu “Turbilhões de nuvens deixam adivinhar, por entre algumas abertas, pares a valsarem. As nuvens desvanecem-se e revelam um salão onde uma multidão rodopia. A luz dos lustres brilha no teto. É uma corte imperial por volta de 1855.” Tendo como pano de fundo essa descrição, desenrolam-se sete temas diferentes, explorando todas as possibilidades que o ritmo tem a oferecer.
Anastasiya Evsina, piano
Cláudio Cohen, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Fevereiro de 2025
Concerto para Piano em Lá Menor, Op. 54
De acordo com o biógrafo André Boucourechliev "o que impressiona na leitura atenta dos escritos de Schumann é a sua prodigiosa riqueza em traços contraditórios". Desde o início de sua carreira de compositor, essas oposições já se revelavam como traço fundamental da linguagem de Robert Schumman; o que dizer, então, de suas obras de maturidade? Basta ouvir os primeiros compassos deste que, talvez, seja o mais emblemático dos concertos românticos, para percebê-las com nitidez irrefutável: após uma introdução brilhante, segue-se, exposto pela orquestra e depois imitado pelo piano, o tema principal da obra, de caráter intimista, que dominará, pelo menos, os dois primeiros movimentos mais a transição do segundo para o terceiro movimento. O Concerto em Lá Menor foi originalmente concebido como uma fantasia para piano e orquestra. De fato, em maio de 1841, Schumann começou a compor para sua esposa a fantasia, que só foi terminada em 1845. A estreia se deu em dezembro de 1845, em Dresden, tendo como solista Clara Schumann, sob a regência de Ferdinand Hiller, a quem a obra foi dedicada. Schumann conseguiu extrapolar estruturalmente os esquemas formais clássicos, propondo um conceito original para o concerto de instrumento solista.
Guilherme Bernstein, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Fevereiro de 2025
Leopoldo Miguez - Prometeus
O poema sinfônico Prometeus é baseado no conhecido mito grego de mesmo nome, que, por diversas vezes, foi transposto em sons, pois não raro sua tragicidade inspirou obras de diferentes compositores, como Beethoven, Schubert e Fauré. Mas, certamente, foi o Prometheus de Liszt, escrito em 1955, que inspirou o compositor brasileiro a criar a sua versão, uma vez que se percebem na obra lampejos da Sinfonia Fausto de Liszt.
Guilherme Bernstein, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Fevereiro de 2025
Mário Olinto - Valsa Singela
A Valsa Singela for composta em 2018, originariamente para orquestra de cordas, com base em um tema já preexiste há anos em rascunhos. Foi submetida, já naquele ano, a duas competições internacionais (uma nos EUA, outra na Ucrânia), sendo premiada em ambas. Posteriormente, a pedido do maestro Guilherme Berstein, a peça foi arranjada para orquestra sinfônica. A valsa segue a estrutura da forma sonata completa – introdução, desenvolvimento com duas seções, desenvolvimento, reexposição e coda. É dedicada à mãe do compositor, Marisa Galloti Olinto.
Guilherme Bernstein, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Fevereiro de 2025
Calos Gomes - Abertura da Ópera Fosca
Composta em quatro atos, a Ópera Fosca, de Carlos Gomes, possui libreto escrito por Antonio Ghislanzoni, com base no romance La Festa della Maria, de Luigi Capranica. Considerada a grande obra-prima de Carlos Gomes, esta é a sua segunda ópera apresentada na Itália e obteve grande sucesso desde a sua estreia, que ocorreu em 16 de fevereiro de 1873, no Teatro Alla Scala de Milão. Fosca chegou a ser apresentada no Scala por quinze vezes consecutivas e foi uma das obras responsáveis por tornar Carlos Gomes reconhecido em todo o mundo. A abertura da ópera é um de seus números mais conhecidos.
Guilherme Bernstein, regência
Teatro Nacional Claudio Santoro
Sala Martins Pena
Fevereiro de 2025
A Sinfonia No. 3 de Guilherme Bernstein é uma obra curta, com apenas três movimentos compactos, todos de caráter alegre e jocoso. O primeiro movimento, Allegro, na tradicional forma sonata característica de toda sinfonia, já começa com a orquestra inteira expondo seu primeiro tema de forma entusiasmada; depois de um rápido desenvolvimento, o segundo tema, mais tranquilo, vai pouco a pouco crescendo até a orquestra dançar como numa festa. O segundo movimento, Andante, tem melodias nos sopros se entrelaçando acima de um acompanhamento simples nas cordas. O movimento final, Vivo deciso, é uma homenagem a Igor Stravinsky e utiliza o motivo de sua Sinfonia em Dó – não coincidentemente, tonalidade também da obra. Porém, se o motivo é o mesmo, sua utilização não poderia ser mais diferente, apesar de, aqui e ali, se ouvir um diálogo com o compositor russo e com o barroco que o inspirou.


