Bille Cipriani
Legião Urbana - A Via-Láctea
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Álbum: “Música para acampamentos” (1992)
Álbum: “Música para acampamentos” (1992)
Senhor, piedade.
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde.
Vamos pedir piedade.
Senhor, piedade
E um pouco de coragem.
Faz parte do meu show.
Faz parte do meu show,
Meu amor.
Nossas meninas estão longe daqui.
Não temos com quem chorar e nem pra onde ir.
Se lembra quando era só brincadeira
Fingir ser soldado a tarde inteira?
Mas agora a coragem que temos no coração
Parece medo da morte, mas não era, então.
Tenho medo de lhe dizer o que eu quero tanto.
Tenho medo e eu sei por que estamos esperando.
Quem é o inimigo?
Quem é você?
Nos defendemos tanto, tanto,
Sem saber
Por que lutar.
Clareia manhã.
O sol vai esconder a clara estrela,
Ardente pérola do céu
Refletindo teus olhos.
A luz do dia a contemplar teu corpo
Sedento,
Louco de prazer
E desejos ardentes.
Nossas meninas estão longe daqui.
E, de repente, eu vi você cair.
Não sei armar o que eu senti.
Não dizer que vi você ali.
Quem vai saber o que você sentiu?
Quem vai saber o que você pensou?
Quem vai dizer agora o que eu não fiz?
Como explicar pra você o que eu quis?
Somos soldados pedindo esmola.
A gente não queria lutar.
(Composição: Renato Russo, Marcelo Bonfá / Cazuza, Frejat / Cazuza, Renato Ladeira / Flávio Venturini, Murilo Antunes)
Álbum: “Música para acampamentos” (1992)
Estátuas e cofres e paredes pintadas:
Ninguém sabe o que aconteceu.
Ela se jogou da janela do quinto andar.
Nada é fácil de entender.
“Dorme agora.”
“É só o vento lá fora.”
“Quero colo, vou fugir de casa.”
“Posso dormir aqui com vocês?”
“Estou com medo; tive um pesadelo.”
“Só vou voltar depois das três.”
“Meu filho vai ter nome de santo.”
“Quero o nome mais bonito.”
É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã,
Porque, se você parar pra pensar,
Na verdade não há.
“Me diz: por que que o céu é azul?”
“Explica a grande fúria do mundo.”
“São meus filhos que tomam conta de mim.”
“Eu moro com a minha mãe,
Mas meu pai vem me visitar.”
“Eu moro na rua; não tenho ninguém.”
“Eu moro em qualquer lugar.”
“Já morei em tanta casa que nem me lembro mais.”
“Eu moro com os meus pais.”
É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã,
Porque, se você parar pra pensar,
Na verdade não há.
Sou uma gota d’água,
Sou um grão de areia.
Você me diz que seus pais não entendem,
Mas você não entende seus pais.
Você culpa seus pais por tudo.
Isso é absurdo.
São crianças como você.
O que você vai ser
Quando você crescer?
When the night has come
And the land is dark...
No, I won’t be afraid.
No, I won’t be afraid.
Just as long as you stand,
Stand by me.
Oh darlin’, darlin’, stand by me.
Oh, stand by me.
C’mon, yeah!
Stand by me...
Sou uma gota d’água,
Sou um grão de areia.
Você me diz que seus pais não entendem,
Mas você não entende seus pais.
Você culpa seus pais por tudo.
Isso é absurdo.
São crianças como você.
O que você vai ser
Quando você crescer?
(Composição: Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá, Renato Russo / Ben E. King)
Álbum: “Música para acampamentos” (1992)
A violência é tão fascinante
E nossas vidas são tão normais.
E você passa de noite e sempre vê
Apartamentos acesos.
Tudo parece ser tão real,
Mas você viu esse filme também.
Andando nas ruas,
Pensei que podia ouvir
Alguém me chamando,
Dizendo meu nome.
Já estou cheio de me sentir vazio.
Meu corpo é quente, estou sentindo frio.
Todo mundo sabe, ninguém quer mais saber.
Afinal, amar ao próximo é tão démodé.
E essa justiça desafinada
É tão humana e tão errada.
Nós assistimos televisão também.
Qual é a diferença?
Não estatize meus sentimentos.
Pra seu governo,
O meu estado é independente.
Já estou cheio de me sentir vazio.
Meu corpo é quente, estou sentindo frio.
Todo mundo sabe, ninguém quer mais saber.
Afinal, amar ao próximo é tão démodé.
(Composição: Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá)
Álbum: “Música para acampamentos” (1992)
Quem me dera, ao menos uma vez,
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano de chão
De linho nobre e pura seda.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Explicar o que ninguém consegue entender:
Que o que aconteceu ainda está por vir,
E o futuro não é mais como era antigamente.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Que o mais simples fosse visto como o mais importante.
Mas nos deram espelhos, e vimos um mundo doente.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três.
E esse mesmo Deus foi morto por vocês.
Só maldade, então, deixar um Deus tão triste.
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda — assim pude trazer você de volta pra mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.
E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Acreditar, por um instante, em tudo que existe;
Acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e, mesmo assim,
Ninguém lhe diz ao menos “obrigado”.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Como a mais bela tribo,
Dos mais belos índios,
Não ser atacado por ser inocente.
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda — assim pude trazer você de volta pra mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.
E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
Nos deram espelhos e vimos um mundo doente.
Tentei chorar e não consegui.
(Composição: Renato Russo)
Álbum: “Música para acampamentos” (1992)
Nosso dia vai chegar.
Teremos nossa vez.
Não é pedir demais:
Quero justiça.
Quero trabalhar em paz.
Não é muito o que lhe peço:
Eu quero trabalho honesto
Em vez de escravidão.
Deve haver algum lugar
Onde o mais forte não
Consegue escravizar
Quem não tem chance.
De onde vem a indiferença
Temperada a ferro e fogo?
Quem guarda os portões da fábrica?
O céu já foi azul,
Mas agora é cinza.
E o que era verde aqui
Já não existe mais.
Quem me dera acreditar
Que não acontece nada
De tanto brincar com fogo.
Que venha o fogo então!
Esse ar deixou minha vista cansada.
Nada demais...
(Composição: Renato Russo)
Álbum: “Música para acampamentos” (1992)
Não sei o que é direito.
Só vejo preconceito.
E a sua roupa nova
É só uma roupa nova.
Você não tem ideias
Pra acompanhar a moda,
Tratando as meninas
Como se fossem lixo;
Ou então espécie rara:
Só a você pertence;
Ou então espécie rara
Que você não respeita;
Ou então espécie rara
Que é só um objeto
Pra usar e jogar fora
Depois de ter prazer.
Você é tão moderno,
Se acha tão moderno,
Mas é igual a seus pais.
É só questão de idade;
Passando dessa fase,
Tanto fez e tanto faz.
Quando nascemos, fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove às seis.
Desde pequenos, nós comemos lixo
Comercial, industrial.
Mas agora chegou nossa vez:
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês.
Somos os filhos da revolução.
Somos burgueses sem religião.
Somos o futuro da nação.
Geração Coca-Cola.
Nós somos tão modernos,
Só não somos sinceros:
Nos escondemos mais e mais.
É só questão de idade;
Passando dessa fase,
Tanto fez e tanto faz.
Você é tão esperto,
Você está tão certo,
Que você nunca vai errar.
Mas a vida deixa marcas;
Tenha cuidado
Se um dia você dançar.
(Composição: Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá)
Álbum: “Música para acampamentos” (1992)
Uma menina me ensinou
Quase tudo que eu sei.
Era quase escravidão,
Mas ela me tratava como um rei.
Ela fazia muitos planos.
Eu só queria estar ali,
Sempre ao lado dela.
Eu não tinha aonde ir.
Mas, egoísta que eu sou,
Me esqueci de ajudar
A ela como ela me ajudou,
E não quis me separar.
Ela também estava perdida,
E por isso se agarrava a mim também.
E eu me agarrava a ela,
Porque eu não tinha mais ninguém
E eu dizia “ainda é cedo, cedo, cedo, cedo, cedo...”
Sei que ela terminou
O que eu não comecei.
E o que ela descobriu
Eu aprendi também, eu sei.
Ela falou “Você tem medo”,
Aí eu disse “Quem tem medo é você”.
Falamos o que não devia
Nunca ser dito por ninguém.
Ela me disse “Eu não sei mais o que eu sinto por você.
Vamos dar um tempo; um dia a gente se vê”.
E eu dizia “ainda é cedo, cedo, cedo, cedo, cedo...”
(Composição: Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Ico Ouro-Preto, Marcelo Bonfá)
Álbum: “Música para acampamentos” (1992)
Ei, menino branco,
O quê que você faz aqui,
Subindo o morro pra tentar se divertir,
Mas já disse que não tem
E você ainda quer mais!
Por que você não me deixa em paz?
Desses vinte anos, nenhum foi feito pra mim,
E agora você quer que eu fique assim, igual a você.
É mesmo; como vou crescer se nada cresce por aqui?
Quem vai tomar conta dos doentes?
E quando tem chacina de adolescentes,
Como é que você se sente?
Em vez de luz, tem tiroteio no fim do túnel.
Sempre mais do mesmo.
Não era isso que você queria ouvir?
Bondade sua me explicar com tanta determinação
Exatamente o que eu sinto, como eu penso e como sou.
Eu realmente não sabia que eu pensava assim.
E agora você quer um retrato do país,
Mas queimaram o filme.
E enquanto isso, na enfermaria,
Todos os doentes estão cantando sucessos populares.
(E todos os índios foram mortos...)
(Composição: Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Renato Rocha, Marcelo Bonfá)
Álbum: “Música para acampamentos” (1992)
Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo.
De amargo, então salgado, ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços
E, ainda leve, forte, cego e tenso
Fez saber que ainda era muito e muito pouco.
Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro,
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão.
Teu corpo é meu espelho, em ti navego.
Eu sei que a tua correnteza não tem direção.
Mas tão certo quanto o erro de ser barco a motor
E insistir em usar os remos
É o mal que a água faz quando se afoga,
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.
(Composição: Renato Russo, Renato Rocha)
Álbum: “Música para acampamentos” (1992)
Em cima dos telhados, as antenas de TV
Tocam música urbana.
Nas ruas, os mendigos com esparadrapos podres
Cantam música urbana.
Motocicletas querendo atenção às três da manhã —
É só música urbana.
Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana.
E, nas escolas, as crianças aprendem a repetir a música urbana.
Nos bares, os viciados sempre tentam conseguir a música urbana.
O vento forte, seco e sujo em cantos de concreto parece música urbana.
E a matilha de crianças sujas no meio da rua — música urbana.
E nos pontos de ônibus estão todos ali: música urbana.
Os uniformes,
Os cartazes,
Cinemas
E os lares,
Favelas,
Coberturas,
Quase todos os lugares.
E mais uma criança nasceu.
Não há mentiras nem verdades aqui,
Só há música urbana.
(Composição: Renato Russo)
Álbum: “Música para acampamentos” (1992)
Parece cocaína, mas é só tristeza.
Talvez, tua cidade.
Muitos temores nascem do cansaço
E da solidão.
Descompasso e desperdício
Herdeiros são agora da virtude que perdemos.
Há tempos tive um sonho.
Não me lembro.
Tua tristeza é tão exata
E hoje o dia é tão bonito.
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso.
Sonhos vêm, sonhos vão.
O resto é imperfeito.
Disseste que se tua voz
Tivesse força igual
À imensa dor que sentes,
Teu grito acordaria não só a tua casa,
Mas a vizinhança inteira.
E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade.
E há tempos são os jovens que adoecem.
E há tempos o encanto está ausente,
E há ferrugem nos sorrisos,
E só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção.
Meu amor,
Disciplina é liberdade.
Compaixão é fortaleza.
Ter bondade é ter coragem.
(Ela disse:)
“Lá em casa tem um poço,
Mas a água é muito limpa.”
(Composição: Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá)
Álbum: “Música para acampamentos” (1992)
Sexo verbal não faz meu estilo.
Palavras são erros e os erros são seus.
Não quero lembrar que eu erro também.
Um dia pretendo tentar descobrir
Por que é mais forte quem sabe mentir.
Não quero lembrar que eu minto também.
Eu sei...
Feche a porta do seu quarto,
Porque, se toca o telefone,
Pode ser alguém
Com quem você quer falar
Por horas e horas e horas...
A noite acabou, talvez tenhamos que fugir sem você.
Mas não, não vá agora, quero honras e promessas,
Lembranças e histórias.
Somos pássaro novo longe do ninho.
Eu sei...
(Composição: Renato Russo)


